-->

Processo de Produção do Absinto: A Fada Verde Alucinógena

O absinto (a famosa fada verde) é um forte licor alcoólico que é feito a partir de uma mistura de álcool e ervas destiladas ou extratos de ervas, principalmente de absinto (planta) e erva-doce, mas principalmente também de três outras ervas aromáticas: absinto romano ou pequeno absinto, erva-doce e hissopo.

processo produção do absinto fada verde

Algo bem curioso no consumo dessa bebida é que existe um ritual e uma parafernália específica que é usada na hora de servi-la. Uma escumadeira especial segurando um cubo de açúcar fica em cima de um copo cheio de absinto. O copo é então colocado sob uma fonte de água, e água dessa fonte é pingada lentamente sobre o açúcar até que se dissolva.

A característica mais marcante do absinto é sua sombra verde brilhante e herbácea que parece quase brilhante. Embora essa bebida alcoólica possa ser incolor, a clorofila presente no absinto funciona como se fosse um corante. Essa bebida também tem algo em comum com o vinho, pois a clorofila também atua como um tanino natural que cria uma sensação palatável de secura ácida.

História do Absinto e os seus efeitos alucinógenos


O absinto foi criado na década de 1790 pelo médico francês Pierre Ordinaire que vivia na Suíça naquela época. O Dr. Ordinaire criou o absinto com a intenção de usá-lo como uma espécie de elixir à base de álcool destilado da erva Artemisia absinthium (ou absinto) que é uma erva de gosto bem amargo. Na época, ele se inspirou nos antigos gregos e egípcios que usavam o absinto para tratar cólicas menstruais e febres.

Um dos problemas das finas folhas de absinto é que elas são naturalmente ricas em tujona (formula química: C10H16O), que é um composto químico alucinógeno que segundo alguns usuários pode desencadear transformações inexplicáveis na mente. Muitos usuários relataram efeitos "iluminadores da mente", acreditando que o absinto tivesse aumentado a percepção, a criatividade e permitia "ver além" de sua capacidade.

A produção comercial de absinto começou em 1797 quando um homem chamado Major Dubied comprou a receita do Dr. Ordinaire e começou a fabricá-la em Couvet, Suíça. Após a compra, os sabores aromáticos como anis quente e erva-doce doce foram adicionados à receita, uma vez que foi produzida como um “aperitivo”.

A popularidade do absinto disparou na década de 1850, quando foi dado às tropas francesas como um remédio preventivo da malária. O gosto dos soldados pelo licor esmeralda garantiu sua presença nos bares, bistrôs e cabarés locais em Paris. Na década de 1860, o happy hour francês das cinco era chamado de l'heure verte ou "hora verde".

A loucura do absinto permeou Paris, favorita entre os aristocratas e a classe média. Mais e mais pessoas começaram a participar do novo coquetel com os seus supostos efeitos alucinógenos, à medida que a fome pela decadência absoluta aumentava durante aquele período.

Naquela época, vários artistas e escritores daquela área começaram a usar o absinto para limpar a mente e buscar inspiração. No romance “Por Quem os Sinos Dobram”, o protagonista desse romance que foi escrito por Ernest Hemingway diz que o absinto é “Opaco, amargo, entorpece a língua, aquece o cérebro, o estômago, a alquimia líquida que muda a ideia. Supõe-se que apodreça seu cérebro, mas não acredito. Isso apenas muda as ideias”.

A bebida também serviu de musa para figuras lendárias e obras históricas dos movimentos artísticos do Simbolismo, Surrealismo, Modernismo, Impressionismo e Cubismo. Na primavera de 1914, o artista Pablo Picasso criou seis cópias de sua obra escultórica "Copo de absinto", retratando uma imagem da bebida decorada com uma colher de absinto autêntica.

copo de absinto de Pablo Picasso 1914
“Copo de Absinto" de Pablo Picasso, 1914

Muitos historiadores de arte afirmam que as pinturas bizarras e o comportamento estranho de Vincent van Gogh foram resultado de seu amor pelo absinto. Diz-se que Van Gogh até bebia aguarrás e comia tintas para sentir efeitos comparáveis ao absinto devido a um ingrediente químico semelhante.

Parecia que o absinto fluiu na torneira para a geração perdida em Paris. Em 1880, a produção em massa fez com que o preço caísse, tornando-o mais acessível a todas as classes. Os franceses estavam bebendo colossais 36 milhões de litros de absinto por ano em 1910, rivalizando com o consumo de quase 5 bilhões de litros de vinho.

Mesa de Café com Absinto de Vincent van Gogh, 1887.
“Mesa de Café com Absinto” de Vincent van Gogh, 1887.

Essa competição feroz levou a reivindicações fabricadas e campanhas de difamação contra o absinto, sendo que boa parte delas foi orquestrada pela indústria do vinho. O absinto que se originou como medicamento logo se tornou associado a crimes violentos, distúrbios sociais e uso de drogas.

Em 1876, o pintor Edgar Degas fez uma pintura que retratou bem essa triste realidade dos viciados em absinto. Em sua obra "L'Absinthe", ele retratou uma triste mulher curvada sobre seu copo de absinto.

L'Absinthe Edgar Degas, 1873 absinto
"L'Absinthe" de Edgar Degas, 1873

A difamação ao absinto foi um grande sucesso e, por fim, levou à proibição dessa bebida em vários países. Em 1912, os Estados Unidos declararam o absinto ilegal, e posteriormente em 1915, a França também declarou o absinto ilegal em seu território.

Hoje, as leis referentes ao absinto variam de lugar para lugar. Embora muitos países tenham permitido a produção de absinto, sendo que a maioria desses países tem sua própria versão com pouca ou nenhuma semelhança com o absinto original.

O foco principal está nos níveis de tujona presentes no nessa bebida, pois é o componente químico que supostamente faz a viagem do consumidor. A venda de absinto nos Estados Unidos exige que o conteúdo de tujona seja inferior a 10 miligramas, o que o torna legalmente livre de tujona. Países como a Austrália e a União Europeia permitem um conteúdo de tujona de até 35 miligramas.

Processo de produção do absinto


Existem várias maneiras de se produzir absinto, sendo que os absintos modernos (ou industriais) são geralmente feitos de uma mistura de álcool, aromas e corantes naturais (ou sintéticos). Já os absintos tradicionais requerem uma fase de maceração seguida de destilação.

Matéria prima usada no processo de produção


O absinto é feito a partir de 3 plantas, sendo essa trindade composta hoje por anis, erva-doce e absinto. Além disso, os produtores também podem adicionar outras ervas, sendo que dentre elas estão: hissopo, melissa, anis estrelado, cannabis, pequeno absinto, raiz de angélica e especiarias como coentro, verônica (planta), zimbro e noz-moscada.

Artemisia absinthium processo produção absinto
Artemisia absinthium é uma das ervas usadas no processo de produção do absinto

A qualidade do produto acabado vai depender da qualidade das ervas usadas no processo de produção do absinto, sendo que isso varia de acordo com o tipo de solo, clima e técnicas de cultivo e colheita. Os produtores geralmente usam álcool de beterraba ou conhaque de uva no processo. Na França, os absintos premium são feitos de conhaque à base de vinho.

Métodos de produção: Destilação ou Mistura


O absinto de alta qualidade é feito por maceração seguida de destilação, com ervas e especiarias entre os ingredientes.

A fase de maceração é feita em um tanque onde o álcool (85%) e as ervas são macerados durante vários dias. No final da maceração, o líquido é filtrado e reduzido com água antes de ser colocado em um alambique para destilar. A destilação é usada para remover cabeças e caudas, e reter apenas o coração do destilado.

Alambique usado produção de absinto
Alambique usado na produção de absinto

O método de mistura é algo usado na produção de alguns gins, mas na produção de absinto esse método resulta na produção de um absinto de baixa qualidade. Esse método consiste basicamente em misturar o álcool com aromas de absinto.

Coloração do absinto


Em geral, a coloração natural e artificial é frequentemente usada na produção de absinto. Em termos de coloração natural, uma etapa final de maceração é realizada após a destilação.

Os absintos tradicionais são coloridos pela clorofila contida nas ervas utilizadas no processo, como por exemplo: o hissopo, a melissa ou o pequeno absinto. Nessa fase de maceração, o álcool adquire uma tonalidade levemente esverdeada e ganha uma complexidade aromática. Esse tipo de absinto é conhecido como absinto verde (Verte). Além disso, uma cor vermelha também pode ser obtida através da adição de flores de hibisco.

Absinto vermelho

Absinto vermelho


Envelhecimento e Engarrafamento do absinto


Após o processo de destilação, o novo destilado conterá cerca de 75% de álcool por volume. Depois de reduzido com água, o absinto pode ser engarrafado ou envelhecido em tonéis.

O engarrafamento dos absintos coloridos artificialmente é muito estável. Eles não requerem nenhum tratamento especial. No entanto, o absinto de cor natural precisa de monitoramento cuidadoso, pois a clorofila presente no absinto é extremamente frágil.

Quando expostos à luz, os absintos verdes mudam gradualmente de cor, mudando de verde para amarelo e finalmente para âmbar. Isso explica por que as velhas garrafas de absinto podem variar de cor. Apesar de servir como prova da idade, essa mudança de cor é impopular nos absintos modernos. Por isso, os absintos naturais geralmente são vendidos em frascos opacos.

Engarrafamento de Absinto
Engarrafamento de Absinto

Referencias



Sobre o autor


Pedro Coelho Olá meu nome é Pedro Coelho, eu sou engenheiro químico, engenheiro de segurança do trabalho e Green Belt em Lean Six Sigma. Além disso, também sou técnico em informática, e em parte de minhas horas vagas me dedico a escrever artigos aqui no ENGQUIMICASANTOSSP, para ajudar estudantes de Engenharia Química e outros cursos. Se você acha legal esse projeto, siga-nos através de nossas paginas nas redes sociais e ajude-nos a divulgar essa ideia, compartilhando com seus amigos as nossas postagens.

0 Comentários de "Processo de Produção do Absinto: A Fada Verde Alucinógena"

Os comentários são sempre bem vindos, pois agregam valor ao artigo. Porém, existem algumas regras na Política de Comentários, que devem ser seguidas para o seu comentário não ser excluído:
- Os comentários devem estar relacionados ao assunto do artigo.
- Jamais faça um comentário com linguagem ofensiva ou de baixo calão, que deprecie o artigo exposto ou que ofenda o autor ou algum leitor do blog.
- Não coloque links de sites ou blogs no corpo do texto do comentário. Para isso, assine com seu Nome/URL ou OpenID.
-Não coloque seu email e nem seu telefone no corpo do texto do comentário. Use o nosso formulário de contato.
- Se encontrar algum pequeno erro na postagem, por favor, seja bem claro no comentário, pois a minha bola de cristal não é muito boa.
- Tem vezes que eu demoro pra responder, mas quase sempre eu respondo.
- Não seja tímido, se você tem alguma duvida ou sabe de algo mais sobre o assunto abordado no artigo, comente e compartilhe conosco :)

Back To Top