Você já parou para pensar no que faz seu celular durar o dia inteiro ou como certos medicamentos conseguem equilibrar o funcionamento do cérebro? Por trás dessas tecnologias e avanços médicos existe um elemento pequeno, mas extremamente poderoso: o lítio.
Presente tanto na área da saúde quanto no coração das baterias que movem o mundo moderno, o lítio tornou-se um dos recursos mais estratégicos da atualidade. Entender o que ele é, para que serve e como é utilizado em remédios e baterias não é apenas uma curiosidade científica, mas uma forma de compreender melhor o impacto desse elemento no nosso cotidiano e no futuro da tecnologia e da medicina.
O que é o lítio e um breve histórico de sua descoberta
A trajetória do lítio tem início no fim do século XVIII, com a identificação do espodumênio, um mineral composto por silicato de lítio e alumínio.
Por volta da década de 1790, o cientista brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva, enquanto realizava pesquisas na Suécia, descobriu dois minerais até então desconhecidos, que foram chamados de petalita e espodumênio. Somente mais de vinte anos depois, o químico sueco Johan August Arfwedson aprofundou os estudos sobre essas substâncias.
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| Retrato de Johan August Arfwedson |
Ao analisar a petalita em 1817, ele constatou a existência de um novo elemento químico, ao qual deu o nome de lítio, que é um nome derivado da palavra grega lithos, que significa pedra, devido à sua aparência cinza, semelhante à pedra. Arfwedson também verificou que esse elemento estava presente no espodumênio e na lepidolita.
O isolamento do lítio ficou a cargo do químico britânico William Thomas Brande, que em 1821 conseguiu obter o metal puro por meio da eletrólise do óxido de lítio. Além disso, Brande identificou sais de lítio em estado puro e determinou seu peso atômico, estabelecido em 6,94.
O lítio em sua forma elementar (Li) pertence ao grupo dos metais alcalinos e possui número atômico 3, correspondente a três prótons e três elétrons, além de quatro nêutrons. Destaca-se por ser o sólido menos denso entre todos os elementos e o metal mais leve conhecido, apresentando densidade inferior à da água. Trata-se de um material bastante reativo, que sofre oxidação rapidamente ao entrar em contato com o ar.
Para que serve o lítio e os seus usos no geral
O lítio é um elemento químico de grande relevância no mundo contemporâneo, especialmente devido ao seu papel estratégico no avanço tecnológico e industrial. Leve, reativo e versátil, esse metal tem sido cada vez mais explorado por sua capacidade de atender às demandas de diferentes setores da sociedade, desde aplicações tradicionais até inovações de alta tecnologia.
Ao longo do tempo, o uso do lítio expandiu-se significativamente, tornando-se essencial em áreas como a produção de cerâmica e vidro, a fabricação de ligas metálicas, o desenvolvimento de lubrificantes, catalisadores de polímeros, propelentes e dispositivos especializados, além de seu destaque em baterias modernas e produtos farmacêuticos.
Dessa forma, compreender o uso do lítio e suas aplicações gerais é fundamental para entender sua importância econômica, científica e tecnológica no cenário atual.
Uso do lítio na produção de remédios
A história do lítio como medicamento começou junto com a história do refrigerante 7-Up que começou sua história como Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda, quando foi lançado em 1929, apenas duas semanas antes da quebra da Bolsa de Valores dos EUA.
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| Um dos primeiros anúncios do refrigerante 7-Up. (Imagem: Shutterstock) |
O criador da bebida, Charles Leiper Grigg, afirmava que o refrigerante, que continha citrato de lítio, tinha o poder de melhorar o humor de quem o consumia. Quando a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos proibiu o uso de citrato de lítio em bebidas em 1948, a receita foi alterada e o lítio foi removido do 7-Up.
A queda na demanda não durou muito, no entanto, porque um ano depois o psiquiatra australiano John Cade estabeleceu que o lítio poderia tratar a mania e, desde então, o carbonato de lítio tornou-se um tratamento padrão para transtornos bipolares e depressivos, oferecendo ajuda a um grande número de pessoas em todo o mundo.
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| Amostra de carbonato de lítio em pó |
Atualmente, o lítio é um medicamento utilizado como estabilizador do humor e contribui para que a pessoa tenha maior controle emocional. Seu uso é especialmente importante no manejo das variações intensas de humor presentes no transtorno bipolar, ajudando a reduzir oscilações entre estados de euforia e depressão, sem causar dependência.
Diante de qualquer condição relacionada à saúde mental, é fundamental buscar orientação médica para avaliar se o uso de medicamentos é adequado, lembrando que o lítio representa apenas uma das possibilidades de tratamento.
O que o lítio faz no cérebro
Apesar de ser amplamente empregado como estabilizador do humor, o modo exato de ação do lítio ainda não é totalmente conhecido. Acredita-se que ele atue no cérebro ao modificar a atividade de substâncias químicas, como a serotonina, colaborando para o equilíbrio do funcionamento mental.
O medicamento é geralmente apresentado na forma de carbonato de lítio, que constitui o princípio ativo dos comprimidos. Em alguns casos, são prescritas versões de liberação prolongada, que devem ser ingeridas inteiras com água, pois ajudam a manter níveis mais constantes da substância no sangue.
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| Carbonato de lítio 300mg |
O lítio é indicado no tratamento de diversos transtornos mentais, como mania, hipomania, transtorno bipolar, esquizofrenia e alguns tipos de depressão. Seus efeitos não são imediatos, podendo levar semanas ou até meses para se tornarem perceptíveis. A dosagem necessária varia de acordo com cada indivíduo, levando em consideração fatores como idade, condições gerais de saúde e o uso concomitante de outros medicamentos.
Quando o tratamento apresenta bons resultados, o lítio pode ser prescrito por longos períodos, que podem durar meses, anos ou até mesmo por toda a vida. Mesmo com a melhora dos sintomas, é essencial manter o uso conforme orientação médica, pois o lítio não promove a cura, mas auxilia no controle dos sintomas e na prevenção de recaídas enquanto estiver sendo utilizado.
O lítio dá sono?
O lítio pode causar sonolência, especialmente no início do tratamento ou quando a dose é ajustada, mas nem todas as pessoas sentem isso e a intensidade varia. Em muitos casos, a sonolência tende a diminuir com o tempo, conforme o organismo se adapta, e ajustes de dose ou de horário de take podem ajudar a reduzir esse efeito.
Se a sonolência for muito intensa, persistente ou atrapalhar atividades diárias, é importante conversar com o médico, que pode avaliar se é necessário reduzir a dose, mudar o horário de tomada ou investigar outras opções de tratamento.
O paciente deve se lembrar sempre de monitorar sinais como tremores, náuseas, ganho de peso ou alterações na tireoide, e manter os exames de sangue para checar níveis de lítio conforme orientação médica.
O lítio engorda?
O lítio pode estar associado a ganho de peso em algumas pessoas, mas não é um efeito inevitável nem ocorre da mesma forma para todos.
Esse aumento geralmente resulta de mecanismos como retenção de líquidos, aumento da sede que leva a maior ingestão calórica, alterações hormonais como hipotireoidismo induzido pelo medicamento ou estímulo ao apetite, embora estudos mostrem que o risco é menor comparado a outros fármacos como olanzapina.
Muitos pacientes mantêm o peso estável com hábitos como dieta equilibrada, exercícios regulares, hidratação adequada e monitoramento da função tireoidiana, e em casos persistentes o médico pode ajustar a dose ou considerar alternativas.
Se você notar mudanças significativas no peso, discuta com seu psiquiatra para exames e estratégias personalizadas, pois o benefício no controle de transtornos como o bipolar muitas vezes supera esse efeito colateral quando bem gerenciado.
Efeitos colaterais do lítio
No início do tratamento, podem surgir efeitos colaterais temporários, que geralmente diminuem ou desaparecem com o passar do tempo. Entre eles estão náuseas leves, diarreia, aumento da sede, maior volume ou frequência urinária, tremores nas mãos e alterações no paladar.
Com o uso prolongado, alguns efeitos podem persistir ou se desenvolver, como cansaço excessivo, ganho de peso, dificuldades de concentração, lapsos de memória, queda de cabelo, alterações na tireoide e possíveis problemas renais, o que reforça a importância do acompanhamento médico contínuo durante o tratamento.
Uso do lítio em bateria
O lítio passou a ter grande relevância tecnológica a partir da década de 1970, durante a crise do petróleo, quando o químico britânico Stanley Whittingham criou uma bateria recarregável baseada em lítio e titânio. Apesar de inovadora, essa primeira versão apresentava riscos de curto-circuito e não teve ampla aceitação.
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| Bateria de lítio 12v |
Em 1980, o cientista americano John B. Goodenough avançou nessa tecnologia ao desenvolver uma bateria com lítio e cobalto, que oferecia maior tensão de funcionamento e maior capacidade de armazenamento de energia.
O progresso decisivo ocorreu em 1985, quando o japonês Akira Yoshino introduziu ânodos de carbono e um eletrólito não aquoso, resultando em uma bateria de íon-lítio mais segura, estável e eficiente, posteriormente comercializada pela Sony.
As baterias de íon-lítio são recarregáveis e funcionam por meio do deslocamento dos íons de lítio entre o ânodo e o cátodo durante os ciclos de carga e descarga. Elas se destacam por sua alta relação entre energia e peso, elevada tensão, baixa perda de carga quando não utilizadas, ausência de efeito memória e boa durabilidade.
Essas características fizeram com que fossem amplamente adotadas não apenas em dispositivos eletrônicos portáteis, mas também em aplicações militares, veículos elétricos e no setor aeroespacial.
Em reconhecimento às contribuições fundamentais para essa tecnologia, Whittingham, Goodenough e Yoshino receberam o Prêmio Nobel de Química em 2019. As baterias de íon-lítio transformaram o cotidiano moderno, viabilizando o uso massivo de smartphones e outros equipamentos portáteis.
Atualmente, com o avanço das metas globais de redução de emissões de carbono, cerca de 85% do lítio produzido no mundo é destinado à fabricação dessas baterias, especialmente para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia renovável.
Hoje, o lítio é obtido principalmente do espodumênio, extraído em minas de rocha dura na Austrália, e de salmouras localizadas no Chile e na Argentina.
Grande parte do minério australiano é processada na China, embora novos centros de refino estejam sendo planejados em diversas regiões, como Europa, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e a própria Austrália. A produção intermediária, que inclui compostos químicos de lítio e materiais para cátodos, concentra-se majoritariamente no Leste Asiático.
Estudos indicam que a expansão dos veículos elétricos poderá multiplicar por cinco a demanda global por lítio até 2040, e que o mercado de baterias de íon-lítio deve alcançar valores expressivos nos próximos anos.
Diante de sua importância estratégica para a descarbonização da economia, muitos países passaram a classificar o lítio como um recurso essencial, incentivando sua produção interna e o fortalecimento das cadeias de suprimento.
Para suprir a demanda futura, empresas vêm ampliando suas operações e investindo em fontes alternativas, como argilas, salmouras geotérmicas e novos minerais, além do desenvolvimento de tecnologias de extração direta de lítio.
Uma vantagem significativa dos veículos elétricos em relação aos movidos a combustíveis fósseis é a possibilidade de reciclagem quase total dos materiais das baterias. Atualmente, os processos existentes conseguem recuperar até 90% do lítio presente, e essa eficiência tende a aumentar com novos investimentos e com o crescimento do volume de baterias descartadas.
À medida que mais veículos elétricos atingirem o fim de sua vida útil, a reciclagem se tornará cada vez mais relevante.
Vivemos um período de profunda transformação nos setores de energia e transporte, e o lítio desempenha um papel central nesse processo, com tendência de se tornar ainda mais importante nas próximas décadas.
Uso do lítio na produção de Cerâmica e vidro
O lítio exerce um papel fundamental na indústria do vidro e da cerâmica, sendo um elemento estratégico para melhorar tanto os processos de fabricação quanto as propriedades finais desses materiais.
Embora muitas vezes associado a tecnologias modernas, como baterias, seu uso no setor vidreiro e cerâmico é antigo e extremamente relevante, especialmente na forma de compostos como o carbonato de lítio.
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| O lítio desempenha um papel importante na produção de vidros e cerâmicas |
Na produção de vidro, o lítio é valorizado principalmente por sua capacidade de atuar como fundente. Isso significa que ele reduz o ponto de fusão das matérias-primas utilizadas, permitindo que o vidro seja produzido a temperaturas mais baixas. Essa característica traz benefícios diretos à indústria, como a diminuição do consumo de energia nos fornos e a redução de custos operacionais.
Além disso, temperaturas de fusão mais baixas favorecem a obtenção de um vidro mais homogêneo, com menos bolhas, distorções e imperfeições estruturais.
Outro aspecto essencial do lítio no vidro é o aumento da resistência térmica. A presença de compostos de lítio contribui para a redução da expansão térmica do material, tornando-o muito mais resistente a choques térmicos.
É por isso que vidros especiais, como o vidro borossilicato utilizado em utensílios de laboratório e cozinha, conseguem suportar variações bruscas de temperatura sem se romper. Essa mesma propriedade é indispensável em aplicações científicas e tecnológicas, como espelhos de telescópios e componentes ópticos de alta precisão.
O lítio também melhora significativamente a transparência e a resistência mecânica do vidro. Sua adição ajuda a manter a estrutura interna mais estável, resultando em materiais com maior nitidez óptica e durabilidade. Isso é especialmente importante em vidros técnicos, como os utilizados em telas, fibras ópticas e equipamentos que exigem alto desempenho e confiabilidade ao longo do tempo.
No campo da cerâmica, o lítio desempenha um papel igualmente importante. Um de seus usos mais conhecidos está na formulação de esmaltes cerâmicos. O carbonato de lítio reduz a temperatura necessária para a queima, facilitando o derretimento e o escoamento do esmalte sobre a superfície da peça. O resultado são acabamentos mais uniformes, brilhantes e vítreos, além de superfícies mais resistentes ao desgaste e à ação química.
Durante o processo de queima em fornos, o lítio contribui para uma fusão mais controlada e homogênea dos materiais cerâmicos. Isso melhora a eficiência do processo produtivo e reduz defeitos, como rachaduras ou variações indesejadas de textura e cor. Dessa forma, o uso do lítio ajuda a garantir maior qualidade e padronização das peças produzidas.
Além das aplicações tradicionais, o lítio é essencial na produção de cerâmicas avançadas. Em setores como o automotivo e o aeroespacial, ele é utilizado no desenvolvimento de cerâmicas leves e extremamente resistentes, capazes de suportar altas temperaturas e pressões sem comprometer o desempenho.
Essas cerâmicas especiais são fundamentais para componentes que exigem alta durabilidade aliada à redução de peso.
O lítio também está presente em cerâmicas de alta tecnologia, como as cerâmicas piezoelétricas, utilizadas em sensores, atuadores e dispositivos de precisão. Nesses materiais, o lítio contribui para propriedades elétricas e estruturais estáveis, ampliando a confiabilidade e a eficiência dos sistemas em que são aplicados.
Uso do lítio na produção de Ligas metálicas de alumínio
O lítio desempenha um papel estratégico na produção de ligas metálicas de alumínio, especialmente quando o objetivo é obter materiais mais leves e resistentes para aplicações de alto desempenho. A adição de lítio ao alumínio resulta nas chamadas ligas de alumínio-lítio, que se destacam principalmente pela excelente relação entre resistência mecânica e redução de peso.
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| Ligas de alumínio-lítio (ligas Al-Li) ou ligas de lítio-alumínio |
Na indústria aeronáutica, essas ligas são amplamente utilizadas na fabricação de diversos componentes estruturais. Peças como bordos de ataque e de fuga das asas, tampas de acesso, trilhos de assento e revestimentos de asas se beneficiam diretamente das propriedades conferidas pelo lítio.
A combinação de leveza e alta resistência contribui de forma significativa para a melhoria da eficiência de combustível e do desempenho geral das aeronaves, fatores essenciais nesse setor.
O uso do lítio em ligas de alumínio também é relevante em aplicações militares. Determinados tipos de aeronaves militares empregam essas ligas em componentes críticos, como caixas de asa principais, fuselagens centrais e superfícies de controle.
Nessas aplicações, as ligas de alumínio-lítio funcionam como substitutas eficazes das ligas de alumínio convencionais, sendo utilizadas também em helicópteros, foguetes e sistemas de satélite. A redução de peso proporcionada pelo lítio impacta diretamente as capacidades operacionais, permitindo maior alcance, carga útil ou eficiência dos sistemas militares.
No setor espacial, o papel do lítio torna-se ainda mais evidente. Entre todos os benefícios das ligas de alumínio-lítio, a diminuição de massa é considerada crucial para missões espaciais.
Essas ligas são materiais candidatos para a fabricação de tanques criogênicos utilizados em sistemas de propulsão. Elas são empregadas, por exemplo, em tanques de combustível de oxigênio líquido e hidrogênio líquido em veículos aeroespaciais.
O desempenho satisfatório dessas ligas em temperaturas extremamente baixas torna o uso do lítio essencial para garantir segurança, eficiência e confiabilidade em ambientes espaciais altamente exigentes.
Assim, o uso do lítio na produção de ligas metálicas de alumínio está diretamente ligado à necessidade de materiais leves, resistentes e capazes de operar em condições extremas, sendo fundamental para avanços nas áreas aeronáutica, militar e espacial.
Uso do lítio na produção de Lubrificantes e graxas
A graxa de lítio foi inventada por volta de 1940 e mostrou-se superior às graxas existentes à base de sódio e cálcio. Ela encontrou amplo uso industrial em motores de aeronaves durante a década de 1940 e ainda é amplamente utilizada hoje.
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| O lítio desempenha um papel importante na produção de lubrificantes e graxas (Imagem: Shutterstock) |
O lítio tem um papel essencial na produção de lubrificantes semissólidos, especialmente nas chamadas graxas de lítio, que estão entre as mais utilizadas na indústria. Nessas formulações, o lítio atua principalmente como agente espessante, sendo responsável pela formação do sabão de lítio que confere à graxa sua estrutura característica e suas propriedades de desempenho.
As graxas de lítio são compostas por uma base oleosa, que pode ser mineral ou sintética, combinada com o espessante de sabão de lítio e aditivos específicos. Essa combinação permite que o lubrificante apresente excelente capacidade de aderência às superfícies metálicas, formando uma película protetora estável mesmo em condições severas de operação. O uso do lítio é determinante para que a graxa suporte variações de temperatura, pressão e umidade sem perder eficiência.
Uma das principais contribuições do lítio nessas graxas é a elevada estabilidade térmica. Graças a essa propriedade, as graxas de lítio conseguem operar de forma eficiente em uma ampla faixa de temperaturas, normalmente entre –20 °C e 120 °C, podendo atingir limites ainda maiores em formulações mais complexas. Essa característica garante desempenho confiável tanto em ambientes frios quanto em sistemas sujeitos ao aquecimento constante.
O lítio também proporciona excelente estabilidade mecânica às graxas. Mesmo quando submetidas a cargas elevadas e movimentos repetitivos, elas mantêm sua consistência, evitando vazamentos ou a perda de capacidade lubrificante. Essa estabilidade é fundamental para aplicações em que os componentes estão em operação contínua ou sob esforço intenso.
Outra função importante do lítio na produção dessas graxas é a proteção contra a corrosão. O sabão de lítio ajuda a formar uma barreira eficiente contra a umidade e agentes corrosivos, reduzindo o desgaste e prolongando a vida útil das peças metálicas. Essa proteção é especialmente relevante em ambientes industriais ou automotivos expostos à água, poeira ou contaminantes.
Além disso, o uso do lítio confere grande versatilidade às graxas. Elas podem ser aplicadas em uma ampla variedade de situações, desde a lubrificação geral até condições mais severas de pressão e ambientes úmidos. Sua alta aderência garante que o lubrificante permaneça no local de aplicação, mesmo em sistemas sujeitos a altas velocidades ou vibrações constantes.
Uso do lítio na produção de Propelentes para foguetes
O lítio tem sido estudado como componente na produção de propelentes para foguetes devido ao seu elevado potencial de desempenho quando utilizado em sistemas de propulsão química. Em especial, análises teóricas avaliaram o uso do lítio líquido em combinação com o flúor líquido como propelentes, com foco no comportamento desses materiais durante o processo de combustão e expansão nos motores de foguete.
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| O lítio desempenha um papel importante na produção de propelentes para foguetes |
Os estudos de desempenho consideraram tanto a condição de equilíbrio químico quanto a chamada composição congelada ao longo da expansão dos gases.
Para essa avaliação, diversos parâmetros fundamentais da propulsão foram analisados, incluindo o impulso específico, a temperatura na câmara de combustão, a temperatura na saída do bocal, a composição dos produtos da combustão, a massa molecular média, a velocidade característica, o coeficiente de empuxo e a razão entre a área da saída do bocal e a área da garganta.
Os cálculos foram realizados considerando uma pressão na câmara de combustão de 300 libras por polegada quadrada absoluta, com expansão dos gases até a pressão de 1 atmosfera.
Nessas condições, o sistema utilizando lítio líquido apresentou um impulso específico máximo de equilíbrio calculado de 335,5 libras-segundos por libra, um valor que evidencia o alto potencial energético do lítio quando empregado como propelente.
Outro aspecto avaliado foi o efeito da ionização dos produtos da combustão no desempenho do sistema. A comparação entre os valores calculados dos diferentes parâmetros, com e sem a inclusão de espécies ionizadas, demonstrou que a ionização teve um efeito desprezível sobre o desempenho geral.
Isso indica que, do ponto de vista teórico, o comportamento do lítio como propelente pode ser analisado de forma confiável sem a necessidade de considerar efeitos significativos de ionização.
Uso do lítio em Dispositivos de flutuação subaquática
O lítio desempenha um papel fundamental em dispositivos de flutuabilidade subaquática, principalmente por meio de baterias de alta densidade energética que alimentam sistemas de flutuabilidade variável em submersíveis, AUVs e ROVs.
Essas baterias permitem o controle preciso do lastro, acionando bombas ou atuadores que ajustam os volumes de ar ou fluido para flutuabilidade neutra. Seu design leve, em comparação com as alternativas de chumbo-ácido, reduz o deslocamento geral do veículo, auxiliando no gerenciamento da flutuabilidade em profundidade.
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| Sistemas de gerenciamento de baterias para veículos subaquáticos |
Recursos de segurança, como compensação de pressão e gerenciamento térmico, são essenciais, pois as células de lítio devem suportar pressões hidrostáticas sem vazar ou inflamar, frequentemente utilizando óleos dielétricos para dissipação de calor e estabilidade da flutuabilidade.
Na prática, os sistemas integram módulos de bateria com espuma sintática para flutuabilidade neutra, garantindo que o conjunto não afunde nem flutue independentemente. As variantes de LiFePO4 se destacam nesse aspecto devido à estabilidade térmica e à vida útil superior a 2.000 ciclos de carga em ambientes salinos.
Os projetos levam em consideração a densidade do lítio (cerca de 0,53 g/cm³ para o metal, maior para compostos) combinando-o com materiais compensatórios, evitando subidas ou descidas indesejadas durante as missões.
Exemplos práticos incluem planadores da Marinha, onde baterias de lítio alimentam motores de flutuação para missões de longa duração, superando as baterias alcalinas em energia por volume. Desafios como a corrosão por água salgada exigem vedação IP68+ e encapsulamento em epóxi.
Uso do lítio em borracha sintética
O lítio desempenha um papel importante na indústria de borracha sintética, sobretudo como iniciador químico no processo de polimerização de certos elastômeros.
Em produtos químicos derivados do lítio, como carbonato de lítio e hidróxido de lítio, o elemento é usado para iniciar e controlar reações de polimerização que produzem borrachas sintéticas com propriedades específicas desejadas para aplicações industriais, inclusive na fabricação de pneus e outros produtos elastoméricos.
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| O lítio desempenha um papel importante na produção de pneus |
Na produção de borracha sintética, compostos organolíticos, como n-butillitio (um reagente contendo lítio), são empregados em reações de polimerização aniônica de monômeros como o butadieno e o estireno. Esse tipo de polimerização permite produzir borrachas com estrutura molecular controlada, resultando em elastômeros de alto desempenho com propriedades mecânicas e de processamento melhoradas.
Assim, o lítio através de seus derivados químicos acaba sendo essencial não apenas como um insumo de base, mas como um agente ativo que influencia diretamente as características finais da borracha sintética, contribuindo para a produção de materiais duráveis e adequados a aplicações técnicas exigentes.
Uso do lítio em armas nucleares
O lítio desempenha um papel crucial no desenvolvimento de armas nucleares, particularmente bombas termonucleares (de hidrogênio), por meio de seu isótopo lítio-6 (Li-6). O Li-6 enriquecido serve como principal fonte para a produção de trítio, um combustível essencial para a fusão nuclear, através da captura de nêutrons em reatores, onde reage para formar trítio e hélio, aumentando o rendimento da bomba na etapa secundária de fusão.
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| O processo de enriquecimento a laser AVLIS apresenta-se promissor para o fornecimento de lítio 6 e 7. |
O processo COLEX, historicamente utilizado por países como os EUA, a Rússia e a China, separa o Li-6 do lítio natural (que é composto por cerca de 7,5% de Li-6 e 92,5% de Li-7), embora a produção tenha praticamente cessado no Ocidente devido a problemas ambientais como a contaminação por mercúrio, restando estoques e esforços limitados em andamento principalmente na Rússia e na China.
Instalações como o Complexo de Segurança Nacional Y-12, nos EUA, processam lítio especificamente para a manutenção de estoques nucleares, ressaltando seu status não físsil, porém essencial, na modernização de armas nucleares.
Mineração e locais onde o lítio está disponível
A mineração do lítio pode ocorrer de duas formas principais: em rochas duras ou em salmouras. Na mineração em rochas, o minério é retirado por meio de minas a céu aberto ou subterrâneas, triturado e tratado quimicamente para separar o lítio, o que exige altos custos e grande consumo de energia.
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| Mineração de Lítio |
Já a extração a partir de salmouras é a mais comum atualmente. Nesse método, a água rica em lítio é bombeada para grandes tanques de evaporação, onde o líquido evapora ao longo de meses, concentrando o mineral.
Depois, o lítio é processado para uso industrial. Embora esse processo seja mais barato, ele pode causar impactos ambientais, como o uso intenso de água e alterações nos ecossistemas locais.
O lítio, assim como elementos como sódio, cálcio e potássio, é um elemento químico de origem natural. Ele pode ser encontrado em grandes quantidades em determinados tipos de rochas e na água, além de aparecer em pequenas concentrações em organismos vegetais e animais. Estima-se que a Terra possua cerca de 12 milhões de toneladas desse elemento.
Os minerais que contêm lítio não são muitos e estão espalhados pela crosta terrestre em concentrações relativamente baixas. Entre os principais minérios utilizados para sua obtenção estão a lepidolita, a petalita e o espodumênio.
Atualmente, a extração de lítio ocorre em diversas regiões do mundo, como nos estados da Carolina do Norte e Dakota do Sul, nos Estados Unidos; em Quebec e nos Territórios do Noroeste, no Canadá; no norte do Brasil; além de países como Suécia e África do Sul.
Em geral, a extração de lítio a partir de rochas duras costuma ser cara e, muitas vezes, evitada. Por isso, a maior parte da produção mundial vem de salmouras, águas subterrâneas ricas em carbonato de lítio acumuladas na crosta terrestre.
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| Lítio reagindo com água |
Referências
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- https://www.albemarle.com/global/en/news/lithium-101-what-it-and-why-do-we-need-it (acessado em 23/12/2025 as 22:07)
- https://www.adionics.com/history-of-lithium/ (acessado em 23/12/2025 as 22:39)
- https://uwaterloo.ca/earth-sciences-museum/resources/detailed-rocks-and-minerals-articles/lithium (acessado em 23/12/2025 as 22:44)
- https://www.exportersindia.com/product-detail/pure-lithium-metal-6025440.htm (acessado em 23/12/2025 as 22:50)
- https://lithium.org/a-brief-history-of-lithium/ (acessado em 26/12/2025 as 23:30)
- https://www.multichemindia.com/blog/lithium-carbonate-shaping-the-future-of-glass-and-ceramics (acessado em 27/12/2025 as 22:35)
- https://www.totalmateria.com/en-us/articles/aluminum-lithium-alloys-1/ (acessado em 27/12/2025 as 22:48)
- https://ntrs.nasa.gov/citations/19930086596 (acessado em 27/12/2025 as 23:05)
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- https://www.healthdirect.gov.au/lithium (acessado em 28/12/2025 as 00:12)
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- https://www.sinoright.net/blog/Lithium-Carbonate--The-Key-Element-Driving-Modern-Technology.html (acessado em 29/12/2025 as 22:13)
- https://www.reapsystems.co.uk/underwater-vehicles-battery-systems (acessado em 29/12/2025 as 22:27)
- https://www.airproducts.ca/applications/rocket-propellant (acessado em 29/12/2025 as 22:41)
- https://www.attelements.com/aluminium-metal-and-alloys/aluminum-lithium-alloy-rod-%28al-li-alloy-rod%29.html (acessado em 29/12/2025 as 22:49)
Sobre o autor
Olá meu nome é Pedro Coelho, eu sou engenheiro químico com Pós Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho e também sou Green Belt em Lean
Six Sigma. Além disso, eu conclui recentemente o curso de Engenharia Civil, e em parte de minhas horas vagas me dedico a escrever artigos aqui no ENGQUIMICASANTOSSP, para ajudar estudantes de Engenharia Química e de áreas correlatas. Se você está curtindo essa postagem, siga-nos através de nossas paginas nas redes sociais e compartilhe com seus amigos para eles curtirem também :)















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