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Cloropicrina e Adamsita: agentes químicos controversos e agentes esternutatórios

Cloropicrina e adamsita são compostos químicos que aparecem tanto em contextos agrícolas/pesqueiros quanto em debates sobre controle de distúrbios e uso de armas químicas. Para estudantes de engenharia, uma dúvida recorrente é entender a diferença entre “gás lacrimogêneo”, “agente esternutatório” e “agente vomitador”, bem como seus riscos e limites legais.

Cloropicrina e Adamsita: agentes químicos controversos e agentes esternutatórios

Este artigo busca explicar esses tópicos de forma técnica, mas acessível, respondendo perguntas típicas de estudantes.


Cloropicrina: o que é e para que serve?


Cloropicrina é a substância de fórmula química CCl₃NO₂, um líquido oleoso com odor organoclorado intenso, descrito em muitas referências como “agente de fumo” ou fumigante de solo. Historicamente foi usada como arma química na Primeira Guerra Mundial, mas hoje também é empregada em agricultura para desinfetar solos, eliminando fungos, nematóides e outros patógenos.

Estrutura química da cloropicrina CCl₃NO₂
Estrutura química da cloropicrina CCl₃NO₂

Da perspectiva de engenharia de processos, sua aplicação como fumigante envolve impregnação do solo, tempo de “fechamento” para difusão e, depois, aeração para reduzir resíduos; o manejo exige cuidados de ventilação e monitoramento atmosférico. Ou seja, tratase de um agrotóxico tóxico, cujo uso é regulado por normas de segurança e saúde ocupacional, diferentemente de seu emprego militar, que hoje é proibido.

Propriedade Físico-Químicas da cloropicrina


A cloropicrina (tricloronitrometano) é um composto orgânico volátil amplamente conhecido por suas aplicações como fumigante agrícola. Além disso, a cloropicrina tem um aspecto líquido oleoso, incolor a amarelado, com odor irritante característico.

Suas propriedades físico-químicas são fundamentais para entender seu comportamento no ambiente e sua eficácia. Possui peso molecular de aproximadamente 164,38 g/mol, o que influencia sua volatilidade e dispersão. Apresenta ponto de fusão em torno de -64 e-69 °C, indicando que permanece no estado líquido em uma ampla faixa de temperaturas ambientais.

Seu ponto de ebulição é cerca de 112 °C, o que reforça sua tendência à evaporação relativamente fácil. A densidade da cloropicrina é aproximadamente 1,65 g/cm³ a 20 °C, sendo mais densa que a água. Além disso, a sua pressão de Vapor é de cerca de 23,2 mmHg a 25∘C.

Quanto à solubilidade, é pouco solúvel em água, mas se dissolve bem em solventes orgânicos, característica que impacta sua mobilidade no solo e no ambiente.

Cloropicrina é um gás lacrimogêneo?


Sim. Cloropicrina é considerada um gás lacrimogêneo potente, pois causa lacrimejamento intenso, dor ocular e sensação de “queimação” nas mucosas. Em concentrações baixas, o efeito principal é irritante; em concentrações maiores, ela atua como agente pulmonar, podendo provocar edema pulmonar e sensação de sufocação.

Do ponto de vista toxicológico, a cloropicrina é um alquilante reativo, capaz de reagir com proteínas e grupos tióis, causando dano celular e inflamação em olhos, vias aéreas e trato gastrointestinal. Isso a diferencia de alguns lacrimogêneos “mais suaves” (como o CS comum), que atuam principalmente por estímulo de receptores sensoriais e desaparecem rapidamente após a exposição.

Efeitos da cloropicrina no corpo humano


Após exposição, o indivíduo tipicamente apresenta:

  • Irritação intensa em olhos, nariz e garganta, com lacrimejamento profuso e sensação de queimação.
  • Tosse, dor torácica e falta de ar, podendo evoluir para edema pulmonar em casos graves.
  • Náuseas, vômitos e, em exposições prolongadas ou de alta concentração, risco de morte por insuficiência respiratória.

Em escala ocupacional, a via respiratória é a principal rota de exposição, com absorção cutânea e ocular secundárias. A exposição crônica pode causar dermatite, irritação crônica das vias aéreas e sensibilização, exigindo limites de exposição ocupacional rigorosos e programas de monitoramento ambiental.

Cloropicrina é proibida em guerras?


Sim. A cloropicrina é considerada agente químico de guerra pela Convenção sobre Armas Químicas (CWC), sob a supervisão da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ). 

O uso deliberado em combate para causar morte ou incapacidade intencional é proibido por tratados internacionais, embora o uso agrícola dentro de regulamentações locais ainda seja permitido em alguns países.

Do ponto de vista de engenharia de segurança, isso significa que instalações que produzem ou aplicam cloropicrina devem observar não só normas trabalhistas, mas também políticas de não‑proliferação de agentes químicos de uso duvidoso, evitando desvios de mercadoria para fins militares ilícitos.

Como se proteger da cloropicrina?


Para proteção respiratória, recomenda‑se:

  • Máscara com filtro químico específico para vapores orgânicos ou respirador autônomo em áreas de alta concentração.
  • Em ambientes fechados com risco de liberação acidental, uso de sistemas de ventilaflexão e detecção de gases clorados.

Em termos de EPI, roupas de proteção baseadas em elastômeros resistentes quimicamente (como Viton) são mais eficazes que materiais comuns, pois reduzem a permeação de líquidos orgânicos. 

Em caso de exposição, o procedimento técnico ideal é: afastar rapidamente da área contaminada, remover roupas contaminadas, lavar pele e olhos com água copiosa e fornecer suporte respiratório e suporte de sintomas (oxigenoterapia, broncodilatadores, etc.), sem antídoto específico.

O cheiro da cloropicrina e antídotos


O odor da cloropicrina é descrito como irritante, agudo e caracteristicamente “organoclorado”, sendo muitas vezes percebido antes de sintomas intensos aparecerem. Isso a torna útil para alerta em ambientes de risco, mas também perigosa, pois o cheiro pode induzir reações respiratórias de pânico (hiperventilação).

Quanto a antídotos, não existe um antídoto específico para cloropicrina ou adamsita. O tratamento é baseado em:

  • Descontaminação imediata (remoção da fonte, lavagem de pele e olhos, troca de roupas).
  • Suporte aos sintomas (oxigênio, broncodilatadores, controle de vômitos e edema, se necessário).

Engenheiros de segurança devem projetar protocolos que priorizem descontaminação rápida, ventilação e fluxo de ar adequado, além de garrafas de irrigação ocular e duchas de emergência em locais de uso ou armazenamento desses agentes.

Adamsita (DM): o que é o gás adamsita e os seus efeitos no organismo?


Foi sintetizado pela primeira vez na Alemanha em 1915 e desenvolvido de forma independente nos EUA por Roger Adams em 1918, de onde vem seu nome comum.

A adamsita é uma arsina heterocíclica com a fórmula molecular C12H9AsClN.
A adamsita é uma arsina heterocíclica com a fórmula molecular C12H9AsClN.


Adamsita, quimicamente chamada cloreto de fenarsazina (DM), é um sólido amarelo marrom usado como agente de controle de distúrbios. Sua ação é predominantemente “vomitadora”: provoca náuseas intensas, salivamento e vômitos imediatos após inalação, incapacitando temporariamente o indivíduo sem necessariamente causar lesão permanente.

Esse composto organoarsênico tóxico pode ser usado principalmente como agente de controle de distúrbios (gás de efeito moral). Ele pertence à classe dos agentes eméticos (que causam vômito) e de gases de espirro.

Essa substância por si só é altamente irritante para as membranas mucosas e o trato respiratório superior. Os sintomas típicos após a exposição incluem:

  • Espirros intensos e coriza aquosa abundante.
  • Dores severas no nariz, seios da face e peito.
  • Náuseas e vômitos violentos.
  • Depressão mental e fraqueza física após a exposição.

Históricamente, a adamsita foi empregada militarmente em granadas e dispositivos de fumaça para dispersar multidões, sendo classificada entre os agentes irritantes e incapacitantes, mais severa que os lacrimogêneos típicos, como o CS. É também considerada um agente químico de uso duvidoso, cujo emprego é regulado por convenções internacionais e normas de direitos humanos.

Propriedade Físico-Químicas da Adamsita


A adamsita (nome sistemático: difenilaminocloroarsina, fórmula molecular: C12H9AsClN) é um composto organoarsênico conhecido por suas propriedades como agente químico irritante. Abaixo estão suas principais características físico-químicas:

  • Peso Molecular:A massa molar da adamsita é calculada como 277,58g/mol.
  • Pontos de Fusão e Ebulição:Ponto de Fusão: 145–150 ∘C (decomposição).
  • Ponto de Ebulição: cerca de 410°C, mas tende a se decompor antes de atingir a ebulição.
  • Densidade: A densidade da adamsita é de aproximadamente 1,65g/cm³ .
  • Solubilidade em Água:A adamsita é pouco solúvel em água, com solubilidade estimada em menos de 0,1g/L a 20∘C. No entanto, é mais solúvel em solventes orgânicos, como acetona e clorofórmio.

Essas propriedades influenciam seu comportamento em condições ambientais e sua eficácia como agente químico.

Diferença entre adamsita e lacrimogêneo comum


Enquanto os lacrimogêneos comuns (ex.: CS, CN, OC) atuam principalmente por irritação de olhos e mucosas, gerando lacrimejamento, dor e sensação de “queimação”, a adamsita tem um efeito mais gastrointestinal, com náuseas e vômitos predominantes. Isso a torna:

  • Mais incômoda e incapacitante em curto prazo, mas com recuperação rápida após cessação da exposição.
  • Mais preocupante em ambientes confinados ou com pessoas com condições médicas pré‑existentes (doenças respiratórias, cardiovasculares, elevação de pressão intracraniana).

Na prática operacional, a escolha entre um lacrimogêneo “clássico” e a adamsita envolve análise de risco: maior incapacidade imediata versus maior potencial de efeitos adversos graves em situações de alta concentração ou exposição prolongada.

A adamsita ainda é utilizada hoje?


A adamsita aparece em manuais históricos e de engenharia de defesa, mas seu uso atual é limitado e controverso. Alguns países mantêm estoques ou equipamentos capazes de empregar o agente, mas a tendência recente é substituir DM por outros lacrimogêneos com perfil de risco mais previsível, de acordo com normas de direitos humanos e convenções internacionais.

Para engenheiros que trabalham em detecção de agentes químicos, a adamsita é relevante principalmente como “caso clássico” em bancos de dados toxicológicos e de monitoramento atmosférico, mais do que como composto amplamente utilizado em operações atuais.

Atualmente, esse composto não costuma ser mais tão utilizado por causa da toxicidade do arsênio, e hoje existe alternativas menos perigosas para controle de multidões.

Adamsita é letal?


Em geral, a adamsita é classificada como agente incapacitante, não como arma letal projetada. Em concentrações típicas de uso em controle de distúrbios, o risco de morte direta é baixo, mas a exposição a altas concentrações ou em indivíduos vulneráveis pode agravar condições respiratórias pré‑existentes, causando complicações graves.

Em escalas ocupacionais ou de segurança industrial, desde que haja ventilação adequada, limites de exposição e procedimentos de emergência, a adamsita pode ser manuseada com relativa segurança, mas sempre sob rigoroso controle de risco.

O que é um agente esternutatório?


Agentes esternutatórios são substâncias químicas que provocam espirros intensos e repetidos, muitas vezes associadas a irritação nasal e faringe. 

Eles podem ser classificados como parte dos “agentes irritantes de controle de distúrbios”, funcionando como complemento ou alternativa a lacrimogêneos, pois a sensação de desconforto e incapacitação imediata dificulta a permanência em determinada área.

Do ponto de vista de engenharia química, um agente esternutatório típico apresenta:

  • Alta reatividade com mucosas respiratórias, mas reversibilidade rápida quando a exposição cessa.
  • Formação de aerosóis ou fumaças finas que permanecem suspensos por tempo suficiente para dispersão em áreas de multidão.

Em suma, a cloropicrina combina propriedades lacrimogêneas, pulmonares e esternutatórias, enquanto a adamsita é mais focada em efeitos nauseantes e vomitadores, todos se encaixam na categoria de agentes químicos incapacitantes sujeitos a normas de engenharia de segurança e regulamentações internacionais.

Referências


  • https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/05/03/o-que-e-cloropicrina-arma-quimica-da-1a-guerra-que-russia-e-acusada-de-usar-na-ucrania.ghtml (acessado em 27/04/2026 as 19:12)
  • https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d2998.htm (acessado em 27/04/2026 as 19:16)
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Cloropicrina (acessado em 27/04/2026 as 19:19)
  • https://www.passeidireto.com/arquivo/151497053/instrumentos-de-menor-potencial-ofensivo (acessado em 27/04/2026 as 19:21)
  • https://www.chemicalrisk.com.br/wp-content/uploads/2015/08/Riscos-da-utilizacao-de-Armas-Quimicas-Parte-1-Historico.pdf (acessado em 27/04/2026 as 19:23)
  • http://historiasylvio.blogspot.com/2014/08/guerra-quimica.html (acessado em 27/04/2026 as 19:28)
  • https://www.youtube.com/watch?v=ZuJ0gZatp2U (acessado em 27/04/2026 as 19:34)
  • https://consultaremedios.com.br/simeticona/bula (acessado em 27/04/2026 as 19:38)
  • https://blog.mettzer.com/artigo-cientifico/ (acessado em 27/04/2026 as 19:41)

Sobre o autor


Pedro Coelho Olá meu nome é , eu sou engenheiro químico com Pós Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho e também sou Green Belt em Lean Six Sigma. Além disso, eu conclui recentemente o curso de Engenharia Civil, e em parte de minhas horas vagas me dedico a escrever artigos aqui no ENGQUIMICASANTOSSP, para ajudar estudantes de Engenharia Química e de áreas correlatas. Se você está curtindo essa postagem, siga-nos através de nossas paginas nas redes sociais e compartilhe com seus amigos para eles curtirem também :)

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