Corrosão microbiológica (Microbiana): O que é e Causas

A corrosão microbiológica (ou corrosão microbiana) é um tipo de corrosão causada por microorganismos (bactérias, fungos e algas) que atuam de maneira intensa nos processos corrosivos. Esses microorganismos estão em toda parte e podem ser encontrados em uma vasta gama de pHs, sendo que eles podem existir em temperaturas de -5°C até 110 °C , e são um dos maiores responsáveis pela corrosão em tubulações industriais enterradas.

Virola enlatado corrosão por célula oclusa
Virola de enlatado com corrosão por célula oclusa

A maioria desses microorganismos vive naturalmente na área metálica, aderidos a uma superfície de subtratos, que são gerados por série complexa de eventos sofridos pelas superfícies metálicas, tais como a excreção de exopolímeros pelos próprios microorganismos, que se ligam fortemente ao substrato, formando uma espécie de biofilme (também conhecido como biofouling), que torna favorável a proliferação desses microorganismos responsáveis pela corrosão.

Conceito e definições básicas


Antes de compreender os mecanismos, formas de detecção e métodos de controle da corrosão microbiológica, é importante estabelecer alguns conceitos fundamentais. A CIM envolve a interação entre micro-organismos, superfícies metálicas e condições ambientais específicas, podendo acelerar processos corrosivos já existentes ou modificar sua forma de ocorrência.

Por isso, conhecer suas definições básicas ajuda a diferenciar a biocorrosão de outros tipos de corrosão e permite interpretar com mais clareza os fenômenos observados em sistemas industriais.


Qual é a Diferença entre Corrosão química e biocorrosão?


Corrosão química é a degradação de materiais causada por reações químicas ou eletroquímicas com o ambiente (por exemplo, oxidação em presença de oxigênio, ataque por ácidos). Já a biocorrosão é a degradação acelerada ou modificada de materiais devido à atividade de micro-organismos ou comunidades microbianas e aos produtos metabólicos que geram. 

Nem toda presença de micro-organismos causa CIM; é a interação entre micro-organismos, suas excreções e a superfície metálica que provoca danos típicos.

Por que a corrosão microbiana também é chamada de CIM?


Porque a sigla CIM significa basicamente Corrosão Induzida por Micro-organismos, e isso quer dizer que este tipo de corrosão é induzida ou acelerada por processos biológicos, distinguindo-se de outras formas de corrosão onde processos exclusivamente físico-químicos predominam. 

Além disso, o CIM inclui tanto mecanismos aeróbios quanto anaeróbios, e pode ocorrer em filmes finos de água, sedimentos, interfases ar/água, superfícies internas de tubulações e em biofouling.

Biofouling presente no interior do trocado de calor
Biofouling presente no interior do trocado de calor

Como funciona o mecanismos e as suas causas


De forma geral, os micro-organismos influenciam a reatividade da superfície metálica por formação de biofilme, criação de gradientes químicas (pH, potencial redox), produção de metabólitos corrosivos (ácidos orgânicos, H2S), e facilitação de reações eletroquímicas locais (células de corrosão).

Biofilme na interface entre a superfície do fluido de usinagem e a parede do reservatório
Biofilme na interface entre a superfície do fluido de usinagem e a parede do reservatório

Como as bactérias corroem o metal?


As bactérias podem contribuir para a corrosão do metal por diferentes mecanismos interligados. Algumas espécies produzem metabólitos corrosivos, como ácidos orgânicos, sulfeto de hidrogênio (H2S) e outros compostos capazes de atacar diretamente a superfície metálica.

Além disso, os micro-organismos podem alterar o potencial eletroquímico da superfície, atuando como catalisadores ou modificando a transferência de elétrons, o que reduz o potencial de proteção e acelera o processo corrosivo.

Outro fator importante é a formação de células galvânicas locais, pois os biofilmes criam zonas anódicas e catódicas muito próximas entre si, favorecendo ataques localizados, como pites.

O que é biofilme e qual o seu papel?


O biofilme é uma matriz polimérica extracelular (EPS - extracellular polymeric substances ou matriz de exopolissacarídeos) produzida por micro-organismos que aderem a uma superfície. Essa matriz é composta por células microbianas, polímeros, íons e detritos, formando uma estrutura complexa que favorece a sobrevivência e a interação entre os microrganismos.

No contexto da corrosão, o EPS desempenha um papel importante ao reter metabólitos e criar microambientes com variações de pH, concentração de oxigênio e potencial redox.

Essas condições favorecem a colonização por espécies microbianas corrosivas e conferem maior proteção às populações contra a ação de biocidas. 

Em tubulações, a presença do biofilme pode promover formas de corrosão localizada, principalmente por limitar a difusão de oxigênio, gerando células de aeração diferencial, ou por concentrar íons agressivos na interface entre o biofilme e a superfície metálica.

As bactérias “comem” o aço/metal?


Não no sentido literal de digestão celular do metal; e em muitos casos as bactérias mediam reações redox que “extraem” elétrons do metal (ou alteram as condições que causam oxidação) e/ou produzem metabólitos corrosivos que atacam o metal. Em suma, o consumo é eletroquímico/metabólico ou indireto, não uma ingestão física.

Mecanismos de Biodeterioração e as bactérias responsáveis pela biocorrosão


Existem vários tipos de microorganismos corrosivos, e dependendo do tipo, o mecanismo de corrosão é diferente, sendo que essa divisão feita abaixo é apenas didática, pois, na prática, pode ocorrer a presença de vários mecanismos de corrosão diferentes.

Diversos grupos de microrganismos estão associados à corrosão influenciada microbiologicamente (CIM), atuando por diferentes mecanismos. Entre os mais importantes estão as bactérias redutoras de sulfato (BRS, do inglês *sulfate-reducing bacteria* – SRB), representadas por gêneros como Desulfovibrio e Desulfotomaculum, que estão diretamente relacionadas à produção de sulfeto de hidrogênio (H₂S) e à corrosão em ambientes anaeróbios.

Desulfovibrio bizertensis é uma bactéria anaeróbica estrita conhecida por sua capacidade de reduzir sulfato e induzir a corrosão biológica severa em metais
Desulfovibrio bizertensis é uma bactéria anaeróbica estrita conhecida por sua capacidade de reduzir sulfato e induzir a corrosão biológica severa em metais

Corrosão por excreção de ácidos


Alguns tipos de bactérias do gênero “Thiobacillus“ são capazes de oxidar o enxofre e seus compostos em ácido sulfúrico a meio aeróbio. Este gênero de bactéria possui varias espécies que são capazes de crescer em meios de pH ligeiramente alcalinos até extremamente ácidos.

Normalmente, a ação corrosiva dessas bactérias se inicia com a proliferação de espécies em meios alcalinos. Após a acidificação do meio ao longo do tempo pelas próprias bactérias, outras espécies corrosivas mais acidofílicas, ou seja, que vivem em um ambiente muito ácido, tomam o controle do processo de corrosão.

Dentre essas bactérias acidofílicas, existe um grupo que é constituído de bactérias excretoras de ácido nítrico, que é dividido em dois subgrupos: um de bactérias conversoras de amônia para nitrito e outro, de bactérias conversoras de nitrito para nitrato. Tanto as bactérias Thiobacillus quanto as nitrificadoras são quimioautotróficas, ou seja, se alimentam apenas de compostos inorgânicos.

Corrosão pela formação de solventes orgânicos


Alguns tipos de microorganismos são capazes de metabolizar substancias orgânicas em condições anaeróbicas. Se um receptor de elétrons, tal como o nitrato, Fe3+,Mn4+ou sulfato, não estiver disponível, poderão ocorrer reações de fermentação.

Neste processo de metabolização, o hidrogênio é transferido entre diversos compostos orgânicos, que como resultado da fermentação, há formação de outros compostos, como o CO2, por exemplo. Tais compostos também podem ser ácidos ou solventes orgânicos, como o etanol, o propanol ou o butanol. Estes solventes podem reagir com os materiais do substrato natural ou sintético, causando a sua degradação.

As bactérias oxidadoras de ferro (FeOB), como *Gallionella* e *Leptothrix*, promovem a deposição de óxidos e hidróxidos de ferro sobre as superfícies metálicas, favorecendo a formação de corrosão localizada, especialmente por pite, sob esses depósitos. Por sua vez, as bactérias redutoras de ferro (FeRB), incluindo os gêneros *Shewanella* e *Geobacter*, podem mediar a transferência de elétrons entre o metal e o meio, influenciando diretamente os processos eletroquímicos envolvidos na corrosão.

A Gallionella ferruginea é uma bactéria quimiolitotrófica conhecida por sua impressionante capacidade de oxidar o ferro e formar estruturas minerais microscópicas em forma de hélice
A Gallionella ferruginea é uma bactéria quimiolitotrófica conhecida por sua impressionante capacidade de oxidar o ferro e formar estruturas minerais microscópicas em forma de hélice.

Além desses grupos, bactérias formadoras de biofilmes e produtoras de ácidos, como *Pseudomonas*, *Bacillus* e *Thiobacillus*, este último composto por bactérias oxidantes de enxofre, também desempenham papel relevante na degradação de materiais, uma vez que favorecem a formação de biofilmes e alteram as condições químicas locais, acelerando os processos corrosivos.

Geobacter é um gênero de bactérias conhecidas por sua capacidade única de produzir eletricidade e "respirar" metais em ambientes sem oxigênio
Geobacter é um gênero de bactérias conhecidas por sua capacidade única de produzir eletricidade e "respirar" metais em ambientes sem oxigênio.

Em determinados ambientes, fungos e leveduras também podem contribuir para a corrosão microbiologicamente influenciada, principalmente por meio da formação de biofilmes e da produção de metabólitos que modificam as características físico-químicas da interface entre o material e o meio.

A Pseudomonas stutzeri (recentemente proposta por alguns taxonomistas como Stutzerimonas stutzeri) é uma bactéria Gram-negativa, em forma de bastonete e móvel por possuir um único flagelo polar.
A Pseudomonas stutzeri (recentemente proposta por alguns taxonomistas como Stutzerimonas stutzeri) é uma bactéria Gram-negativa, em forma de bastonete e móvel por possuir um único flagelo polar.

Corrosão por outros compostos metabólicos


Um importante composto associado à corrosão microbiológica é o sulfeto de hidrogênio (H2S), o mesmo é produzido em condições anaeróbicas pela ação das bactérias redutoras de sulfato, sulfeto e enxofre livre. 

O sulfeto de hidrogênio pode ser utilizado pelos microorganismos de várias formas, podendo ser re-oxidado a ácido sulfúrico, em condições aeróbicas, ou, quando na presença de nitratos, formar sulfetos. O H2S também pode ser produzido em condição aeróbica através da decomposição de aminoácidos sulfurados.

A amônia é outro composto relevante para a corrosão microbiológica. Ela pode ser gerada pela degradação da uréia e aminoácidos. Largamente existente na atmosfera (sais de amônia com sulfato ou cloreto), é o meio adequado para as bactérias nitrificadoras.

BRS (Bactérias Redutoras de Sulfato) e seu papel detalhado


As bactérias redutoras de sulfato (BRS) desempenham um papel importante na corrosão influenciada microbiologicamente devido ao seu metabolismo anaeróbio. Esses microrganismos utilizam o sulfato (SO₄²⁻) como aceptor final de elétrons durante a respiração anaeróbia, reduzindo-o a sulfeto (S²⁻), que é frequentemente liberado na forma de sulfeto de hidrogênio (H₂S). 

A produção de H₂S é particularmente crítica, pois esse composto reage com o ferro presente em materiais metálicos, formando sulfetos de ferro (FeS) e promovendo a corrosão do aço. Além disso, o H₂S pode induzir fragilização por hidrogênio em determinados materiais, acidificar o ambiente local e favorecer tanto a corrosão generalizada quanto a corrosão localizada.

Do ponto de vista eletroquímico, as BRS podem acelerar a taxa de corrosão ao consumir o hidrogênio adsorvido na superfície metálica. Segundo a teoria clássica da despolarização catódica, esse processo reduz o efeito protetor do hidrogênio, favorecendo a continuidade das reações corrosivas. 

Além disso, a formação de biofilmes contribui para o estabelecimento de células locais de corrosão, intensificando o ataque em regiões específicas da superfície metálica. 

Esses microrganismos são encontrados principalmente em ambientes anaeróbios, como sedimentos, fundos de tanques, interfaces entre água e sedimento, sistemas de produção de petróleo e gás e tubulações onde ocorre a formação de biofilmes densos, condições que favorecem seu crescimento e atividade metabólica.

Formação de biofilme


A formação de biofilme (também chamado de biofouling) pode causar o aparecimento de Corrosão por Célula Oclusa (CCO) e de problemas relacionados à eficiência de processo em equipamentos industriais, tais como o trocador de calor, onde após certo tempo de uso ocorre a formação do biofouling, que atrapalha na troca térmica.

Na indústria alimentícia, a formação do biofilme nas chapas para latas de conserva pode ser muito danosa, pois as chapas são normalmente revestidas com vernizes para proteger a lata contra os ácidos oriundos dos alimentos, e o biofilme impede a adesão do verniz no local que é afetado pela corrosão, com isso, consequente deterioração do alimento.

As latas amassadas ou com suas virolas corroídas são ambientes altamente propícios para a proliferação de microorganismos corrosivos. Nas virolas dos enlatados é comum ocorrer a CCO e a formação de ambientes anaeróbicos favoráveis para essas bactérias, sendo que com a progressão do processo de corrosão, ocorre o contato entre o meio bacteriano residente na célula de corrosão da virola e o alimento no interior do alimento.

Com isso, ocorre a contaminação do alimento, que ao ser consumido provoca graves infecções bacterianas, podendo levar a pessoa à morte. Por isso, nas indústrias alimentícias existe um rígido controle na produção de alimentos enlatados.

Caso especial - Corrosão in Vivo (Corpo Humano)


A corrosão in Vivo é basicamente a corrosão de um implante, que ocorre quando o mesmo é submetido aos fluidos celulares. Este tipo de corrosão ocorre geralmente após um trauma ou cirurgia, onde o pH do fluido no local pode ter uma diminuída temporária, com isso, o implante pode acabar sofrendo uma corrosão por erosão ou fadiga.

implante cabeça femur rompida
implante de cabeça de fêmur rompida

Materiais afetados e ambientes comuns


Os materiais metálicos e não metálicos podem ser afetados de diferentes formas pela corrosão influenciada microbiologicamente (CIM). O aço carbono é frequentemente o material mais impactado em aplicações industriais, sendo suscetível à formação de pites e à corrosão generalizada em ambientes onde há presença de biofilme e bactérias redutoras de sulfato (BRS).

O aço inoxidável, embora apresente maior resistência à corrosão, também pode sofrer CIM, especialmente na forma de corrosão por pite e corrosão sob tensão (SCC), quando exposto simultaneamente a biofilmes e íons cloreto, uma vez que a presença do biofilme pode comprometer localmente sua camada passiva.

Já os materiais não metálicos, como plásticos e compósitos, estão sujeitos ao biofouling (incrustação microbiana) e, em alguns casos, à biodegradação de determinados polímeros, além de poderem favorecer a corrosão de estruturas metálicas adjacentes.

Os ambientes mais comumente associados à ocorrência da corrosão influenciada microbiologicamente incluem a indústria de petróleo e gás, especialmente em sistemas de produção, linhas de fluxo, separadores e tanques de armazenamento, onde a presença de água produzida, bactérias anaeróbias e sulfeto de hidrogênio (H₂S) cria condições favoráveis ao processo corrosivo.

Da mesma forma, sistemas de saneamento e tratamento de águas residuais, como coletores, estações elevatórias e emissários, apresentam elevada disponibilidade de matéria orgânica e zonas anaeróbias que favorecem o desenvolvimento de BRS.

Torres de resfriamento e sistemas de água de processo também constituem ambientes propícios devido à formação de biofilmes, ao biofouling e aos ciclos de cloração, que podem selecionar comunidades microbianas mais resistentes.

Além disso, reservatórios, tanques de armazenamento, tubulações enterradas e estruturas marinhas representam locais frequentemente suscetíveis à ocorrência desse tipo de corrosão.

A biocorrosão ocorre em ambientes anaeróbios?


Sim. Muitas bactérias corrosivas (como BRS) prosperam em condições anaeróbias e são responsáveis por formas severas de CIM. Entretanto, mecanismos aeróbios (p.ex., bactérias oxidantes de ferro) também contribuem em presença de oxigênio. A CIM pode envolver sucessão microbiana: comunidades aeróbias consomem O₂ criando zonas anaeróbias onde BRS proliferam.

Sinais e identificação e como detectar


A identificação da biocorrosão é uma etapa fundamental para o diagnóstico e o controle desse tipo de deterioração, uma vez que seus efeitos podem ser semelhantes aos da corrosão convencional. A atuação de micro-organismos sobre superfícies metálicas altera as condições químicas e eletroquímicas do meio, favorecendo o desenvolvimento de processos corrosivos localizados.

Dessa forma, a observação de sinais característicos e a aplicação de métodos adequados de inspeção e análise são essenciais para distinguir a biocorrosão de outros mecanismos de degradação, permitindo a adoção de estratégias de monitoramento, prevenção e mitigação mais eficazes.

Observações visuais:

  • Pites e cavidades escuras: ataque localizado que aparece como pites profundos, muitas vezes com depósitos escuros (FeS) ou material orgânico dentro das cavidades.
  • Depósitos e biofouling: camadas aderentes, viscosa, escura ou marrom-avermelhada na superfície, com odor sulfídrico em casos de H₂S.
  • Descoloração e manchas: manchas pretas/acinzentadas (sulfetos), odores, turvação do fluido.

Técnicas de inspeção e monitoramento:

  • Inspeção visual direta (pigging interno em dutos, sondas removíveis, boias de inspeção).
  • Análises microbiológicas: contagem de células totais (ATP), cultivo (aeróbio/anaeróbio), qPCR para genes específicos (ex.: dsr gene para BRS).
  • Análises químicas: medição de H₂S dissolvido, ácidos orgânicos, sulfetos, consumo de oxigênio, pH local.
  • Técnicas eletroquímicas: medição de correntes de corrosão (LPR - Linear Polarization Resistance), monitoramento de potencial, sensores de corrosão por elétrons.
  • Métodos não destrutivos (NDT): ultrassom (espessura), endoscopia, inspeção por vídeo, radiografia dependendo do acessível.

Como diferenciar corrosão por aeração diferencial da microbiana?


Aeração diferencial é um mecanismo físico-químico onde diferenças de difusão de oxigênio entre zonas da superfície geram células anódicas/catódicas. A CIM pode reproduzir esse padrão, pois biofilmes criam zonas de difusão reduzida e zonas de oxidação. Para diferenciar:

  • Procure presença de biofilme, material orgânico, assinaturas microbiológicas (ATP, DNA, cultivo).
  • Detecte metabólitos (H₂S, ácidos orgânicos) ou genes associados a BRS.
  • Teste com biocidas: redução significativa da taxa de corrosão após aplicação de biocida sugere componente microbiano.
  • Análise metalográfica e química dos depósitos (presença de sulfeto de ferro, por exemplo) pode indicar atividade microbiana.

Medidas de prevenção, tratamento e como resolver  a corrosão microbiológica


A prevenção e o tratamento da corrosão microbiológica exigem uma abordagem integrada, que combine boas práticas de projeto, controle operacional, monitoramento contínuo e uso adequado de tratamentos químicos e físicos.

Como a CIM resulta da interação entre micro-organismos, biofilmes, condições do processo e características do material, sua mitigação depende não apenas da eliminação dos agentes biológicos, mas também da redução dos fatores que favorecem sua instalação e crescimento.

Nesta seção, serão apresentados os principais métodos utilizados para prevenir, controlar e minimizar os impactos da biocorrosão em sistemas industriais.

Estratégia integrada e boas práticas de projeto


A prevenção eficaz da biocorrosão depende da adoção de uma abordagem integrada que combine um projeto adequado do sistema, a seleção de materiais compatíveis com o ambiente de operação, o controle da formação de biofilmes, a aplicação de tratamentos químicos, como biocidas e dispersantes, e o monitoramento contínuo das condições operacionais.

Entre as principais boas práticas de projeto, destacam-se a minimização de zonas de estagnação de fluidos e de acúmulo de depósitos sólidos, que favorecem o crescimento microbiano, a escolha de materiais ou revestimentos resistentes às condições ambientais, como aços ligados e aços inoxidáveis com especificações adequadas, e o desenvolvimento de sistemas que permitam a realização de inspeções, limpeza mecânica e operações de pigging.

Essas medidas reduzem a probabilidade de formação de biofilmes e, consequentemente, diminuem o risco de ocorrência da biocorrosão.

O que são biocidas e como controlam a biocorrosão?


Os biocidas são agentes químicos utilizados para eliminar ou inibir o crescimento de micro-organismos, sendo exemplos comuns o cloro, o dióxido de cloro, o glutaraldeído, o brometo de dimetilamina, as isotiazolinonas e os peróxidos.

Quando aplicados corretamente, esses compostos reduzem a densidade microbiana e promovem a ruptura dos biofilmes, contribuindo para o controle da biocorrosão. 

A aplicação dos biocidas pode ocorrer por meio de dosagem contínua, tratamentos de choque (shock dosing) ou procedimentos de limpeza combinados com dispersantes, sendo a escolha da estratégia dependente das características do sistema, da compatibilidade com os materiais, dos requisitos de segurança e das regulamentações ambientais vigentes.

Entretanto, o uso de biocidas apresenta limitações, como o desenvolvimento de resistência microbiana, a proteção conferida aos micro-organismos pela matriz polimérica extracelular (EPS) dos biofilmes, possíveis danos aos materiais e a formação de subprodutos tóxicos.

Por esse motivo, o monitoramento contínuo da eficácia dos tratamentos é indispensável para garantir um controle eficiente da atividade microbiológica e minimizar os riscos de biocorrosão.

Revestimentos e tintas protetoras


A aplicação de revestimentos constitui uma importante estratégia para a prevenção da biocorrosão, pois cria uma barreira física entre a superfície metálica e os micro-organismos. Revestimentos orgânicos e inorgânicos, como os à base de epóxi e poliuretano, reduzem o contato direto dos micro-organismos com o metal, dificultando a formação e o desenvolvimento de biofilmes.

Além disso, revestimentos contendo biocidas ou aditivos antimicrobianos, como nanopartículas de prata e agentes liberadores de íons, podem proporcionar uma proteção adicional ao inibir o crescimento microbiano. Entretanto, seu uso exige atenção devido às preocupações relacionadas à lixiviação desses compostos e ao cumprimento das regulamentações ambientais.

Outra abordagem consiste na utilização de sistemas de passivação, como aqueles baseados em nitritos, e de revestimentos associados à proteção catódica ou a ânodos de sacrifício, que contribuem para reduzir a taxa geral de corrosão.

Apesar de sua eficácia, essas técnicas não substituem a necessidade de controle da formação de biofilmes, sendo mais eficientes quando empregadas em conjunto com outras medidas preventivas.

Métodos práticos de prevenção e monitoramento


A prevenção e o controle da biocorrosão exigem uma abordagem integrada que envolva aspectos de projeto, operação, tratamento químico, seleção de materiais, proteção eletroquímica, monitoramento e gestão.

Na fase de projeto, é fundamental evitar zonas de retenção de fluidos, garantir a drenagem completa do sistema e prever condições que possibilitem a realização de operações de pigging, facilitando a remoção de depósitos e biofilmes.

Durante a operação, recomenda-se a realização de flushing periódico, além do controle da temperatura e da concentração de oxigênio sempre que as condições do processo permitirem, reduzindo fatores que favorecem o crescimento microbiano.

O controle químico deve ser baseado em programas de tratamento com biocidas definidos a partir de análises microbiológicas, associados ao uso de dispersantes e agentes quelantes capazes de promover a remoção da matriz polimérica extracelular (EPS) dos biofilmes.

Além disso, o controle do pH e da disponibilidade de nutrientes, especialmente pela limitação de fontes de carbono e da alimentação de substratos, contribui para restringir o desenvolvimento das comunidades microbianas.

A seleção de materiais também desempenha um papel essencial na mitigação da biocorrosão, sendo recomendada a utilização de materiais mais resistentes às condições de serviço, como aços inoxidáveis adequadamente especificados, ligas metálicas especiais e revestimentos à base de epóxi, cuja aplicação correta e inspeção periódica são fundamentais para garantir sua integridade.

Em sistemas nos quais a proteção catódica é aplicável, podem ser empregados ânodos de sacrifício ou sistemas de corrente impressa, devendo-se monitorar cuidadosamente seu desempenho para evitar um dimensionamento excessivo que favoreça formas localizadas de corrosão.

O monitoramento contínuo constitui outra etapa indispensável do controle da biocorrosão, sendo recomendado o estabelecimento de programas regulares de inspeção que incluam medições de ATP, análises por qPCR utilizando marcadores específicos, ensaios microbiológicos por cultivo, determinação da concentração de sulfeto de hidrogênio (H₂S) e monitoramento de parâmetros químicos do sistema.

Complementarmente, podem ser utilizados sensores de corrosão em tempo real, como aqueles baseados em Resistência à Polarização Linear (LPR) e Resistência Elétrica (ER), além de inspeções por ultrassom e operações de pigging para avaliação da formação de depósitos. 

Ensaios laboratoriais acelerados com biofilmes e a identificação das espécies microbianas presentes também fornecem informações importantes para o diagnóstico e a definição das estratégias de controle.

Quando a biocorrosão já está instalada, podem ser adotadas medidas de mitigação local, incluindo limpeza mecânica por pigging ou jateamento, remoção de depósitos acumulados e aplicação direcionada de biocidas nas regiões afetadas.

Por fim, todas essas ações devem estar inseridas em um sistema de gestão integrado, baseado em programas de inspeção fundamentados em risco (Risk-Based Inspection - RBI), registro sistemático de ocorrências, capacitação das equipes envolvidas e adoção de políticas de segurança e proteção ambiental, garantindo maior confiabilidade operacional e redução dos impactos associados à biocorrosão.

Exemplo prático de protocolo de controle em tubulação


O controle da biocorrosão deve ser iniciado por um diagnóstico detalhado, que inclui inspeções visuais, amostragem de biofilmes e a aplicação de técnicas de monitoramento microbiológico, como a medição de ATP, a reação em cadeia da polimerase quantitativa (qPCR) para detecção de bactérias redutoras de sulfato (BRS) e a determinação da concentração de sulfeto de hidrogênio (H₂S).

Após a identificação da contaminação microbiológica, recomenda-se a realização de limpeza mecânica, por meio de operações de pigging, para remover depósitos e biofilmes aderidos às superfícies internas das tubulações.

Em seguida, deve-se aplicar um tratamento de choque com um biocida compatível e aprovado para o sistema, seguido de uma dosagem de manutenção para evitar a recolonização microbiana.

A eficácia dessas medidas deve ser acompanhada por um programa contínuo de monitoramento, envolvendo medições semanais de ATP, análises mensais por qPCR, monitoramento da concentração de H₂S e avaliação contínua da taxa de corrosão por meio da técnica de Resistência à Polarização Linear (LPR).

Caso sejam observadas recorrências frequentes da biocorrosão, torna-se necessário reavaliar a seleção dos materiais empregados e o projeto do sistema, buscando eliminar condições que favoreçam o desenvolvimento de biofilmes e a atividade microbiológica.

    Referências

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    Sobre o autor


    Pedro CoelhoOlá meu nome é , eu sou engenheiro químico com Pós Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho e também sou Green Belt em Lean Six Sigma. Além disso, eu conclui recentemente o curso de Engenharia Civil, e em parte de minhas horas vagas me dedico a escrever artigos aqui no ENGQUIMICASANTOSSP, para ajudar estudantes de Engenharia Química e de áreas correlatas. Se você está curtindo essa postagem, siga-nos através de nossas paginas nas redes sociais e compartilhe com seus amigos para eles curtirem também :)

    4 Comentários de "Corrosão microbiológica (Microbiana): O que é e Causas"

    Unknown
    16 de setembro de 2019 às 14:40

    Boa tarde, gostaria de saber sobre as reações químicas que ocorrem no processo de corrosão, em equação química, agradeço desde já!

    Pedro Coelho
    17 de setembro de 2019 às 15:13

    Olá Anônimo

    Isso varia muito do tipo de microorganismo, metal, e o meio ao qual o metal está exposto como vemos no texto acima, pois tem diversos microorganismos sendo que alguns apenas consomem o metal, e também tem outros que não consomem que é o caso das bactérias Thiobacillus que se alimentam de enxofre (S) e excretam ácido sulfúrico (H₂SO₄) na superfície metálica.

    2S + 2H₂O + 3 0₂ → 2 H₂SO₄

    Unknown
    5 de fevereiro de 2020 às 23:44

    Preciso analisar uma corrosão em inox para saber se e microbiologica ou não. Como faço essa análise

    Pedro Coelho
    6 de fevereiro de 2020 às 15:42

    Olá Anônimo

    Você reparou se tem a formação de algum biofilme(biofouling) na superfície metálica?

    Pois esse tipo de corrosão é bem comum em área portuária, e tem diversas imagens no google imagens desse tipo de corrosão.

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